ReverberAções
2006
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“
O conceito de Site-Related e Projetos Coletivos de Artistas”
- Claudia Paim
Performance
“Reverências e Andrajos/Redes e Liminaridades”
- Fabiane Borges
“Tv
Digital: a hora da produção independente e regional”
– Intervozes – Diogo Moyses e Jonas Valente
“Pessoas
em Movimento Publico e Político: Considerações
Iniciais e Provisórias” – Gavin Adams.
Fotos
arq. 1, 2, 3,
4, 5, 6, 7,
8, 9, 10, 11
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O CONCEITO DE SITE-RELATED E
PROJETOS COLETIVOS DE ARTISTAS
(resumo)
Claudia Paim
Quais
os limites do conceito de site-specific? Qual é o limite
do trabalho?
James Meyer é um autor que distingue duas noções
de site: literal site e functional site. A idéia de literal
site considera o site em seus aspectos físicos, sobretudo.
Se, agindo assim, os artistas supõem o site como único
o trabalho que realizam será, então, ele mesmo, único.
É, até certo ponto, a lógica do monumento (MEYER:
2000, p. 24). Como exemplos podem ser observadas as civic sculptures
de Richard Serra.
Em contraste com o literal site, o functional site pode ou não
incorporar o espaço físico que, então, não
é privilegiado neste tipo de prática. Ela é
mais da ordem do processo. É relacional e provoca uma ativação
simultânea de outros sites que podem ser de instituições
a textos e comportar de discursos a corpos que lhes animam. Ele
é um informational site, sendo possível sua composição
de forma simultânea por textos, fotografias, vídeos
gravados, espaços físicos e objetos (MEYER: 2000,
p. 25).
O trabalho site-related é, para este autor, aquele que é
pensado também como mobilidade, ou seja, e este traço
não apenas é representado ou mimetizado pela própria
forma do trabalho (MEYER: 2000, pp. 32-33). Os projetos de Green,
Fraser e Müller citados como exemplos são observados
como propositores “de um modelo de site que é, como
o sujeito que o atravessa, móvel e contingente” (idem,
p.35).
Vamos usar agora uma iniciativa coletiva de artistas para pensarmos
sobre as transformações da noção de
site: Hoffmann’s House. Observá-la dentro da contemporânea
noção de site-related: aqui a tônica é
um pensamento que toma o site como um espaço relacional.
H’sH é uma pequena casa de madeira pré-fabricada.
Dois artistas chilenos adquirem uma, adotam seu nome de batismo,
instalam-se em ruas e parques e convidam outros artistas para ali
realizarem exposições. Depois de um certo período,
migram.
1
MEYER, James. “The functional Site; or, The Transformation
of Site Specificity”. In: SUDERBURG, Erika (ed). Space, Site,
Intervention: situating installation art. Minneapolis (EUA): University
of Minnesota Press, 2000.
Em 2003, H’sH foi convidada para integrar uma exposição
no Museu Salvador Allende. A estratégia adotada pelos seus
administradores é digna de atenção: buscaram
ocupar o museu, sem perder suas singularidades. Optaram por acoplar
a casa de madeira em uma das aberturas do museu.
Hoffmann’s House. Museo de la Solidaridad Salvador Allende,
4 de julho a 3 de agosto de 2003.
Vendo imagens desta “simbiose”, não podemos deixar
de pensar que a estratégia é a de um organismo o qual
usa outro e, por seu turno, é, de alguma maneira, também
usado. Para este projeto os artistas/administradores da casa optaram
por realizar uma grande mostra de videoarte com a projeção
de mais de quarenta trabalhos. Devemos observar ainda o título
desta mostra, “Con energia más allá de estos
muros” – sugerindo que, mesmo do lado de fora das paredes
de um espaço institucional de visibilidade, há energia
e trabalho, ou talvez, existam por isto mesmo...
Claudia Paim
artista
plástica,
doutoranda em Artes Visuais pela UFRGS
2006
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REVERÊNCIAS
E ANDRAJOS / REDES E LIMINARIDADES
Um homem de rua se espreguiçou do fundo dos amontoados dos
sacos pretos de lixo; parecia estar emergindo das fissuras dos paralelepípedos.
Ele se espichava vagarosamente, cascas de batata despencavam dos
seus braços, pedaços de panos rasgados esfarrapavam-lhe
o peito, um berro se enunciava.
Se
não soubesse que era um morador de rua, pensaria tratar-se
de uma eletrizante intervenção performática,
produzida por algum performer inconformado com os espaços
comuns de atuação de sua arte, resolvido a assumir
a rua como lugar legítimo de experiência e produção.
O
timbre do berro do homem-despacho era similar aos berros advindos
das ruínas das Alemanhas neubautenianas. Aquele berro de
rua emergido dos sacos de lixo mostrava um desespero ainda não
suplantado.
A
manifestação transitória das imagens, a narrativa
fragmentada, o uso descontextualizado dos elementos disponíveis
naquele espaço, os gestuais minimalistas, as fusões
de imagens e sons em meio a via pública, tudo isso sugeria
que eu estava diante de uma obra inaudita cuja criação
era abstrata, pulsativa, primária, que por influxos germinativos
conectados incorporava incríveis intensidades. O mendigo
alheio à sua condição de artista, criador e
manifestante político produziu uma performance pública,
alterando naquele momento a realidade espaço-temporal comum,
confundindo imagens e hipertextualizando os sentidos da rua.
Que inscrições possíveis poderiam produzir
essas corporeidades-linguagens instaladas nos espaços públicos
da cidade? Seria possível deflagrar a partir desses corpos/modos
uma crise amplificada que produzisse efeitos para além das
lutas de classes identitárias, algo como uma convulsão
performa/social? Que mecanismos empregar-se-iam para amplificar
seus gestos de modo a fazê-los vibrarem mais, dilatarem-se,
deslocarem-se para além de seus circuitos viciados a fim
de constituírem-se como linguagem produtiva no socius, sem
que pra isso precise fundar um movimento organizado, político-burocrático?
Essas questões tornaram-se as mais importantes em minhas
criações artísticas e produções
de eventos culturais: procurar nas fissuras do cotidiano e da linguagem
dos que vivem nesses altos graus de exceção, suas
constelações inenarráveis. Poderiam as tecnologias
performáticas e multimidiáticas atravessar os véus
endurecidos da falta, sobrepostos à experiência trágica
do morador de rua? Os véus culturalmente criados a partir
de valores ascendentes e assépticos que costumam reduzir
a expressão vital do-que-vive-na-rua à pura incapacidade
de adaptação ao sistema econômico, à
inabilidade de articular o discurso da linguagem lógica e
à patologia crônica seriam fatores impeditivos na busca
de outras variabilidades?
Para suportar essas perguntas e aprofundá-las aproximei minhas
pesquisas às do Renato Cohen porque intuía ressonâncias
entre elas. Cohen às voltas com performance e loucura, fragmentações
e desnarrativas, produzindo espetáculos cuja via irracionalista
sempre surpreendia e frustrava o público teatreiro e galerista
em busca de espetáculo. E eu tropeçando nas tentativas
de compreender, para além das “faltas”, “limitações”
e “desorganização de classe” dos moradores
de rua... Compreender seus gestos como incisivas atuações
antropológicas; mesmo quando em paralisias de gestos: greves
humanas.
Foi com o que denominei eventos transconectivos que pude dar vazão
a algumas dessas idéias. Criei alguns hapennings públicos
com grupos que operavam com softwares de imagem e som, intervenção
urbana, body modification, performance, circo e outros para que,
junto com moradores de rua e também trabalhadores de serviços
públicos que atuavam com moradores de rua, construíssem
linguagens coletivas de caráter político e estético.
Mas a essas experiências faltavam ainda a eficiência
de levantar e atender demandas.
Sim. Demasiado ousado fazer política com festa pública.
Mas era essa minha tarefa/pesquisa. Ao invés de um relato
frustrado, compartilho algumas experiências vividas e reafirmo
o papel interventor e inovador da arte quando obrigada a criar em
tamanhas condições de riscos e vulnerabilidades.
Fabiane
Borges atuou com moradores de rua na cidade de Porto Alegre como
coordenadora do projeto inclusão cultural da Secretaria Municipal
de Cultura com crianças e adolescentes em situação
de rua, em São Paulo como participante do coletivo Catadores
de Histórias e psicóloga institucional de equipamentos
públicos (albergues e projetos sociais) e no Rio de Janeiro
como consultora do Ministério da Saúde – Unidade
de Prevenção DST/Aids. É mestre em psicologia
pela PUC. SP e Professora de comunicação e jornalismo
na UNICESP. DF. 2006.
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TV
Digital: a hora da produção independente e regional
Diogo Moyses
Jonas Valente
A discussão
sobre a implantação da TV digital no Brasil tem se
concentrado nas características do padrão tecnológico
a ser adotado e nas compensações industriais que o
país pode receber na negociação. Contudo, a
atenção dada até agora a estes dois temas desvia
a discussão do ponto principal: o conteúdo que será
transmitido pela nova plataforma de comunicação. No
processo de digitalização, importa, sobretudo, o que
a televisão vai mostrar. De um lado – por necessariamente
induzir uma reconfiguração das regras da radiodifusão
– a TV digital permite uma revisão qualitativa do conteúdo,
sua linguagem e formato. De outro, a tecnologia possibilita uma
ampliação diversificada e desconcentrada da produção
audiovisual.
O que
mais interessa, entretanto, é saber se a nova tecnologia
permitirá maiores opções de escolha de programas
gratuitos, se a diversidade cultural estará acessível
para todos. Exatamente por isso, a TV digital brasileira precisa
mirar a questão do conteúdo audiovisual e do modelo
de negócios associado à veiculação deste.
Alguns aspectos, em boa parte,são acessórios desta
questão primordial.
As
reflexões apresentadas se justificam pelas possibilidades
advindas da nova tecnologia. Com a TV digital, é provável
multiplicar o número de canais, o que pode garantir espaço
na televisão aberta para novos programadores e produtores
de conteúdo audiovisual. Do ponto de vista econômico,
esta abertura pode ser a transição rápida para
um setor com grande potencialidade.
Setor
econômico fundamental
A pujança do setor audiovisual na economia dos países
desenvolvidos é sintoma de como o debate sobre a digitalização
no Brasil está sendo mal conduzido. Nos EUA, por exemplo,
o setor econômico mais importante é justamente a economia
da cultura e do audiovisual. Por isso, simplesmente discutir o padrão
tecnológico a ser adotado pelo Brasil, é desperdiçar
a oportunidade de promover o desenvolvimento do essencial e gerando
mais empregos qualificados a médio prazo.
Se
as definições acerca do SBTVD não tocarem no
modelo de exploração da televisão aberta, todo
este potencial poderá ser desperdiçado e o Brasil
continuará refém de uma programação
homogeneizada, baseada em material importado e produzido exclusivamente
nas próprias emissoras.
Desde
que existem, as emissoras não dão espaço nem
para 5% do que o país produz. No ano passado, o Brasil exibiu
na TV somente 1 dos 45 dos seus próprios filmes. O país
ainda possui outra distorção: a maioria das emissoras,
em vez de comprar produções independentes, acaba vendendo
espaço na grade de programação para pastores
evangélicos e promotores de venda.
Diversificar para desenvolver
Para os movimentos que lutam pela democratização das
comunicações, a saída é apostar na veiculação
desta produção, incentivando a fruição
dos bens culturais por toda a população e, conseqüentemente,
o desenvolvimento do setor audiovisual no país. O dinamismo
dessa indústria, com geração de mais e melhores
empregos, depende da criação de novos instrumentos
legais para o setor, que contemplem preceitos constitucionais como
o estímulo à programação regional e
à veiculação da produção independente
brasileira nas emissoras públicas e comerciais.
A opção
apresentada não é nova, e resistir-lhe, também
não. Desde 1991 tramita no Congresso um projeto de lei (PL
59/2003) que obriga as emissoras a veicular percentuais variáveis
de programação regionalizada, devendo uma parte dela
ser independente. A proposta segue congelada no Senado a pedido
das emissoras, que afirmam não haver alternativa ao modelo
de produção concentrada nas cabeças-de-rede.
Não
contentes em não abrir parte do espaço de sua concessão,
os radiodifusores ainda tentam impedir que os novos canais quando
forem abertos com a TV digital, cumpram este papel. Um dos argumentos
é não haver programação em quantidade
e qualidade para ocupar este espaço.
Mesmo
contra a lógica de mercado, sem incentivo nem apoio, a produção
descentralizada cresce (afinal, como investir sabendo que não
há como escoar a produção?), sendo o caminho
mais curto para desenvolver o setor audiovisual brasileiro. As emissoras
de TV, em sua polarização com as companhias de telecomunicações,
tentam nos fazer crer que a defesa de seus interesses é a
defesa do interesse nacional. Mas ao manter um mercado fechado e
com essas enormes barreiras de entrada, o Brasil sufoca a sua própria
cultura.
Em
jogo estão duas formas de ver o que a TV deveria transmitir.
De um lado, o modelo baseado nas emissoras comerciais defende que
não haja ampliação de programações
e os canais apenas melhorem sua qualidade de imagem e som. De outro,
embora não uniformemente, acadêmicos, gestores públicos
e integrantes da sociedade civil defendem o aproveitamento da TV
digital para democratizar o concentrado cenário da mídia
brasileira e o cumprimento das finalidades educativas e culturais
presentes na Constituição Federal.
Diogo
Moyses
Jonas Valente, membros do Intervozes – Coletivo Brasil de
Comunicação Social
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