ReverberAções
2006
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Dinâmicas
Culturais
“Urgência” – Cibele Risec
“Cultura Como Meio De Transformação
Social” – Maria Elisa Cevasco
“Elogio aos Errantes: A arte de se perder
na cidade” – Paola Nerenstein Jacques
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Arte
Estética e Política
“Táticas de Aglomeração”
– Ricardo Rosas
“Poéticas Nômades: Arte, Arquitetura
e Urbanismo da Internacional Situacionista” – Roberto
M. de Andrade
“Um olhar autoreferencial sobre os circuitos
artísticos alternativos: Situação mestiçagem
specific: AV/ PR / XX & XXI – Newton Goto
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Novos
Meios de Circulação
Novos Meios de Difusão
“TV Digital e TV Comunitária
– Tecnologia de digitalização do sinal de televisão
e acesso público” –
Almir Almas
" O Canal Contemporâneo e a construção
do espaço cibernético como meio social" - Patricia
Canetti.
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Relações
Institucionais
“Mercado
de Arte: Diagnóstico e Cura” – Ricardo Ramalho
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Novas
Organizações e Economia
“Outros Tempos, Outras Greves”
– Marcos Fernandes
“O Tempo é Onde, o Lugar é Quando:
TORREÃO” – Elida Tessler
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Práticas
Artísticas Atuais
“Arquitetura
da Resistência” – Bijari
Fotos: Graf_gentrif - Anderson
- Galinha
“Química das Idéias” LabID
“Conectado à Terra” –
Rubens Pileggi Sá
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URGÊNCIA
Cibele Risec As
questões postas hoje em discussão para a produção
estética se relacionam estreitamente com suas formas de financiamento
e suas decorrências e imbricações a respeito
do lugar e dos vínculos entre essa produção
e a tessitura sócio-política contemporânea.
A base empírica dessa reflexão se ancora nos coletivos
de teatro, que se articularam como um movimento (ainda que se recusem
a qualquer forma institucional) auto denominado Arte contra a Barbárie.
Graças às suas demandas e provocações,
provenientes de sua ação em São Paulo em torno
da necessidade e urgência do fomento público e de critérios
públicos de julgamento e escolha dos grupos a serem contemplados
com as verbas daí resultantes, isto é, de suas propostas
que caminharam para um conjunto de embates em torno de uma política
pública de cultura (e não de programas sociais pontuais
e focalizados) voltada para a produção teatral, alguns
eixos de reflexão acabaram por se delinear, na procura de
alternativas ao que F. Jameson chamou veementemente de A Cultura
do Dinheiro.
A
discussão em torno do fomento público se coloca na
perspectiva de se contrapor às formas de arbitragem privada
no financiamento da produção cultural, o que por sua
vez, remete aos usos contemporâneos da cultura espetacularizada,
midiatizada e vinculada aos processos mundiais de financeirização.
O descolamento desse tipo de produção teatral das
formas de patrocínio pelo capital mobilizado pelas empresas
privadas ou públicas tem como desdobramento um conjunto de
questões: autonomia/ heteronomia da produção
cultural, a constituição de públicos e sua
dissociação dos limites superiores da pirâmide
social, as perguntas relativas a esses públicos em constituição
(arte para quem?), o diálogo entre arte, cidade e intervenção
na cidade (que significa intervir na cidade? Quais tensões,
contradições e conflitos são mobilizados por
este ato?)
O
contraponto da lógica do patrocínio – que, diga-se
de passagem, é arbitrada privadamente ainda que utilize fundos
e recursos públicos- é a lei de fomento, duramente
conquistada pelo Arte contra a Barbárie e constantemente
ameaçada de desmonte, o que é outra fronteira de conflitos
em meio a tantas formas de ameaça ao próprio sentido
da produção de arte, à sua assimilação
pura e simples pela lógica voraz da mercantilização
a qual, como sabemos, transforma a qualidade em quantidade. Resta
saber a que, para além do combate, é possível
identificar hoje como núcleo que poderia distinguir (se é
que ainda é possível) um modo próprio do fazer
arte, para além do consumo, da distinção, da
captura no nascedouro desse fazer pela lógica do espetáculo,
bem como suas questões, a possibilidade de constituição
de novos públicos, a possibilidade desse fazer em meio à
pasteurização, por um lado, e estrita elitização,
por outro; daquilo que já pôde ser identificado como
partilha do sensível, como desacordo sobre o mundo, como
criação de uma lógica que embaralha hierarquias
mais do que as ratifica.
Cibele Risec é socióloga, professora da USP de São
Carlos, acompanha e assessora os grupos que se mobilizam pela Arte
Contra a Barbárie.
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Cultura
como meio de transformação social
Maria Elisa Cevasco
A
concepção abrangente de cultura como uma forma determinada
de organização dos significados e valores de uma sociedade
específica coloca, de saída, a questão da sua
função social. Esta torna-se ainda mais premente em
nosso mundo conectado pelos meios de comunicação de
massa que penetram todas as esferas da sociedade. A expansão
da esfera da cultura em nossos dias é de tal ordem que já
se disse que a lógica que impulsiona nosso modo de vida é
ele mesma feita de imagens e representações, em uma
palavra, de produção cultural. São os produtos
culturais que moldam nossa subjetividade , nosso sentimentos, nossa
visão de mundo e, em tempos de criação de desejos
pela propaganda, nosso próprio Inconsciente. Essa situação
tem suscitado uma série de posições sobre a
função social da cultura.
Para efeitos de sumário, podemos dizer que de um lado há
os que deploram a abrangência dos meios de comunicação
de massas e a padronização das artes e concluem: em
nossos dias a função da cultura é manipular
corações e mentes, formando seres humanos padronizados
e incapazes de qualquer criatividade. No extremo oposto, há
os que celebram a nossa era como a das possibilidades infinitas
de contato quando finalmente há condições técnicas
para que todos se comuniquem e coloquem suas posições.
Penso que nesse momento vale a pena retomar certas teorias da tradição
materialista de crítica cultural que nos podem ajudar a nos
situar no debate. Theodor Adorno nos chama a atenção
para o fato de que o funcionamento corrente da cultura, o qual ele
resume como o de uma indústria cultural, se apóia
em um procedimento de manipulação e, para funcionar
bem depende de um procedimento contrário, de gratificação.
No entanto, o oferecido pela grande maioria desses produtos é
o da mínima exigência: o prazer do fruidor viria da
certeza que esses produtos lhe dão, não se lhe vai
pedir questionamentos ou problematizações, mas apenas
receba as formas e conteúdos veiculados. Esse tipo de recepção
inscrita nos produtos leva à passividade e, por tabela, ao
endosso da situação vigente. Para o crítico
empenhado, que visa pensar a contrapelo dessa situação,
resta buscar as formas possíveis de gratificação
sem manipulação. Para Adorno, essa gratificação
sem receita, que se abria para diferentes interpretações
e possibilitava um conhecimento novo, estava na grande arte, naquela
que conseguia dar forma ao curso do mundo e demonstrar seus limites
e possibilidades. Trata-se da obra de arte exigente, que demanda
reflexão e tomada de posição.
Há diferentes conceitos sobre a cultura. Uma das visões
mais prestigiosas é como esfera dos valores espirituais,
onde se constrói a linguagem da humanidade encapsulada nas
grandes obras de arte. A partir desse ideal do humano, o mundo da
cultura passaria julgamento sobre o mundo material, esfera dos interesses
e dos conflitos. Essa visão faz pouco sentido em um mundo
dominado pela indústria cultura.
Em nossos dias de máxima padronização, rareiam
as condições de possibilidade para esse tipo de obra.
Que resta então ao crítico cultural e aos produtores
de cultura desejosos de intervir na formação social
e enfrentar a avalanche da cultura apenas afirmando a vida tal qual
ela é? Minha palestra vai procurar mapear as formas do negativo,
as maneiras com que certos produtos e práticas culturais
nos ajudam na tarefa inadiável de dizer não a um mundo
que nega possibilidades e mudanças.
Maria
Elisa Cevasco é doutora em Letras pela USP e professora associada
em Estudos Culturais e Literaturas em Língua Inglesa. Publicou
vários artigos no Brasil e no exterior , autora de Dez lições
sobre estudos culturais (Editora Boitempo), Para ler Raymond Williams
(Editora Paz e Terra) entre outros.
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Elogio
aos Errantes: a arte de se perder na cidade
Tanto
os métodos de análise contemporâneos das disciplinas
urbanas quanto o que poderia ser visto como um de seus resultados
projetuais, a cidade-espetáculo , se distanciam cada vez
mais da experiência urbana, da própria vivência
ou prática da cidade. Errar poderia ser um instrumento desta
experiência urbana, uma ferramenta subjetiva e singular, ou
seja, o contrário de um método ou de um diagnóstico
tradicional. A errância urbana seria uma apologia da experiência
da cidade, um tipo de ação que poderia ser praticada
por qualquer um.
Os
praticantes das cidades atualizam os projetos urbanos, e o próprio
urbanismo, através da prática dos espaços urbanos.
Os urbanistas indicam usos possíveis para o espaço
projetado, mas são aqueles que o experimentam no cotidiano
que os atualizam. São as diferentes ações,
apropriações ou improvisações, dos espaços
que legitimam ou não aquilo que foi projetado, ou seja, são
essas experiências do espaço pelos habitantes, passantes
ou errantes que reinventam esses espaços no seu cotidiano.
Enquanto
o urbanismo busca a orientação através de mapas
e planos, a preocupação do errante estaria mais na
desorientação, sobretudo em deixar seus condicionamentos
urbanos, uma vez que toda a educação do urbanismo
está voltada para a questão do se orientar, ou seja,
o contrário mesmo do “se perder”. Em seguida,
pode-se notar a lentidão dos errantes, o tipo de movimento
qualificado dos homens lentos, que negam, ou lhes é negado,
o ritmo veloz imposto pela contemporaneidade. E por fim, a própria
corporeidade destes, e, sobretudo, a relação, ou contaminação,
entre seu próprio corpo físico e o corpo da cidade
que se dá através da ação de errar pela
cidade. A contaminação corporal leva a uma incorporação,
ou seja, uma ação imanente ligada à materialidade
física, corporal, que contrasta com uma pretensa busca contemporânea
do virtual, imaterial, incorporal.
1 Espetáculo no sentido
dado por Guy Debord em A sociedade do Espetáculo, Rio de
Janeiro, Contraponto, 1997 (versão original francesa de 1967).
Ver também IS (Paola Berenstein Jacques, org.), Apologia
da Deriva, Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2003.
As
três propriedades mais recorrentes das errâncias –
se perder, lentidão, corporeidade - estão intimamente
relacionadas, e remetem a própria ação, ou
seja, a prática ou experiência do espaço urbano.
O errante urbano se relaciona com a cidade, a experimenta, e este
ato de se relacionar com a cidade implica nesta corporeidade própria,
advinda da relação entre seu próprio corpo
físico e o corpo urbano que se dá no momento da desterritorialização
lenta da errância. Para resumir pode-se dizer que o errante
faz seu elogio à experiência principalmente através
da desterritorialização do ato de se perder, da qualidade
lenta de seu movimento e da determinação de sua corporeidade.
As três propriedades poderiam ser consideradas como resistências
ou críticas ao pensamento hegemônico contemporâneo
do urbanismo que ainda busca uma certa orientação
(principalmente através do excesso de informação),
rapidez (ou aceleração) e, sobretudo, uma redução
da experiência e presença física (através
das novas tecnologias de comunicação e transporte).
Apesar
da intíma relação entre essas propriedades
da errância, talvez seja a relação corporal
com a cidade, na experiência da incorporação,
que mostre de forma mais clara e crítica, o cotidiano contemporâneo
cada vez mais desencarnado e espetacular. Diante da atual espetacularização
das cidades que se tornam cada dia mais cenográficas, a experiência
corporal das cidades, ou seja, sua prática ou experiência,
poderia ser considerada como um antídoto à essa espetacularização.
O que chamo de espetacularização das cidades contemporâneas
- que também pode ser chamado de cidade-espetáculo
(no sentido debordiano) - está diretamente relacionado a
uma diminuição da participação mas também
da própria experiência urbana enquanto prática
cotidiana, estética ou artística.
A
redução da ação urbana pelo espetáculo
leva a uma perda da corporeidade, os espaços urbanos se tornam
simples cenários, sem corpo, espaços desencarnados.
Os espaços públicos contemporâneos, cada vez
mais privatizados ou não apropriados, nos levam a repensar
as relações entre urbanismo e corpo, entre o corpo
urbano e o corpo do cidadão, o que abre possibilidades tanto
para uma crítica da atual espetacularização
urbana quanto para uma pesquisa de outros caminhos pelos errantes
urbanos, que passariam a ser os maiores críticos do espetáculo
urbano.
Ver Espetacularização
Urbana Contemporânea in Cadernos PPG-AU/FAUFBA, número
especial Territórios Urbanos e Políticas Culturais,
PPG-AU/UFBA, Salvador, 2004
Ao
se observar mais de perto a história crítica do urbanismo,
a história marginal, é possível se perceber
um outro caminho, que critica a espetacularização
desde seus primórdios. Nesta pista, as principais questões
são as diferentes formas de ação, e participação,
na cidade mas também as relações corporais,
através das experiências efetivas dos espaços
urbanos. As relações sensoriais com a cidade que passam
pela experiências corporais destes espaços, em suas
diferentes temporalidades, seriam o oposto da imagem da cidade-logotipo.
Os cenários ou espaços espetacularizados, desencarnados,
seriam propícios somente para os simples espectadores.
Os
praticantes da cidade, como os errantes urbanos, realmente experimentam
os espaços quando os percorrem, e assim lhe dão corpo,
e vida, pela simples ação de percorrê-los. Uma
experiência corporal, sensorial, não pode ser reduzida
a um simples espetáculo, a uma simples imagem ou logotipo.
A cidade deixa de ser um simples cenário no momento em que
ela é vivida, experimentada. Ela ganha corpo a partir do
momento em que ela é praticada, se torna “outro”
corpo. Para o errante urbano sua relação com a cidade
seria da ordem da incorporação. Seria precisamente
desta relação entre o corpo do cidadão e deste
outro corpo urbano que poderia surgir uma outra forma de apreensão
da cidade, uma outra forma de ação, através
da experiência da errância – desorientada, lenta
e incorporada - a ser realizada pelo urbanista errante, que se inspiraria
de outros errantes urbanos e, em particular, das experiências
realizadas pelos escritores e artistas errantes.
Paola
Berenstein Jacques é doutora em história da arte pela
Universidade de Paris 1 (Sorbonne), professora da Faculdade de Arquitetura
e vice-coordenadora da Pós-Graduação em Urbanismo
da Universidade Federal da Bahia, pesquisadora CNPq, coordenadora
do acordo CAPES/COFECUB Territórios Urbanos e Políticas
Culturais, é autora dos livros: Les favelas de Rio (Paris,
l'Harmattan, 2001); Estética da Ginga (Rio de Janeiro, Casa
da Palavra, 2001); Esthétique des favelas (Paris, l'Harmattan,
2003); co-autora de Maré, vida na favela (Rio de Janeiro,
Casa da Palavra, 2002) ; organizadora de Apologia da Deriva (Rio
de Janeiro, Casa da Palavra, 2003), Corps et Décors urbains
(Paris, l'Harmattan, 2006), e Corpos e cenários urbanos (Salvador,
Edufba, 2006).
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TÁTICAS
DE AGLOMERAÇÃO
Ricardo Rosas
Estratégias coletivas de movimentação podem
ser arte? Protesto, ação direta, manifestação
são também uma arte, ou posto de outra forma, existe
uma “arte do protesto”? Talvez não sob esta denominação.
O propósito aqui não é tanto analisar as formações
coletivas sob um ponto de vista artístico que lhe tira de
um contexto para enquadrá-lo em outro, caso de certas obras
contemporâneas, como por exemplo, da Social Parade, de Jeremy
Deller, ou outros que mimetizam passeatas e manifestações,
ou seus cartazes num espírito absolutamente fora de circunstância.
A questão é virar esse olhar em 180 graus. Tentar
a possibilidade de ser arte nas aglomerações, algo
que críticos como Brian Holmes enxergam na criatividade dos
protestos dos Dias de Ação Global, dos grupos anti-globalização
e dos artistas-ativistas. Há arte porque a estética
e o pensamento não estão excluídos aqui, mas
presentes de uma forma muito crítica.
Como então, ampliando nosso ângulo de observação
mais ainda, ver a arte do próprio método de aglomeração?
Certamente as recentes idéias sobre o “enxame”
(ou swarm) podem ser bastante úteis para se entender como
grupos e comunidades se formam e se desfazem, caso dos flash-mobs.
Podemos, no entanto, observar na própria tradição
cultural brasileira, diversas formas de aglomeração
que nos trariam mais clareza sobre a questão, pois porque
muitos dos coletivos artísticos brasileiros, mesmo que inconscientemente,
já adotam essas táticas faltando talvez desnudá-las
para entender melhor tais formas e até mesmo pensar novas
combinações ou re-combinações.
Se nos voltamos para práticas como o mutirão, a tertúlia
ou o arrastão, percebemos muitos de seus elementos básicos
presentes em ações aglomeradoras de coletivos, pois
não nos referimos aqui as ações promovidas
por um único grupo, mas as integrações de coletivos
em ações simultâneas, como é o caso em
festivais, encontros, ações diretas de defesa de movimentos
sociais e mobilizações destes. Eventos como Mídia
Tática Brasil, Digitofagia, ações como o Integração
Sem Posse, ACMSTC ou da Favela do Moinho, entre outras, refletem
atuações conjuntas realizadas de forma quase espontânea,
com pouco ou quase nenhum apoio financeiro, de forma aberta e colaborativa,
seguindo formatos que mais ou menos se assemelham a essas práticas
brasileiras. E por que não procurar entendê-las? Por
que não, por ocasião mesmo da 27ª Bienal de São
Paulo, pensar “como agir juntos”, “como protestar
juntos”?
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Poéticas
nômades:
arte, arquitetura e urbanismo
da Internacional Situacionista
O movimento político-artístico
denominado Internacional Situacionista (IS) surgiu no fim dos anos
1950 buscando subverter a cultura burguesa vigente em plena guerra
fria. Reagindo à espetacularização da vida,
da sociedade e da arte, os situacionistas opunham ao homo faber
o homo ludens. No campo das artes os situacionistas reagiam ao fetiche
e mercantilização da obra de arte e preconizavam a
participação ativa das pessoas no processo de produção
artística. Críticos radicais da arquitetura e do urbanismo
modernos, propunham a deriva como forma de conhecimento e intervenção
no meio urbano, junto com uma cidade e arquitetura nômades,
como o projeto do arquiteto holandês Constant Niewenhuis para
“Nova Babilônia”.
Se a deriva pode ser entendida enquanto desdobramento da poética
do gesto que se manifestava na arte do pós-guerra, como no
expressionismo abstrato do grupo COBRA na Europa, ou de Pollock
nos EUA, por outro lado, as concepções dos situacionistas
produzirão múltiplas ressonâncias na arte dos
anos pós-60, seja na idéia de “happening”
e instalação artística, até a produção
de grupos como “Fluxus”, ou na arte de rua com seus
grafitis, dos quais os “situs” foram pioneiros em maio
de 68 na França.
Nossa comunicação pretende traçar um quadro
das propostas e realizações da IS, em especial no
campo das artes, arquitetura e urbanismo, discutindo a hipótese
de que suas poéticas apresentam um caráter nômade
radical que marca as experiências artísticas contemporâneas,
ao menos daquelas que ainda pretendem revolucionar o modo de vida
atual, operando desvios nos símbolos do status quo, redefinindo
seus significados numa perspectiva subversiva e anárquica.
Carlos Roberto M. de Andrade (Arquiteto e sociólogo, docente
do Depto. de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de
São Carlos – Universidade de São Paulo)
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| Um
olhar autoreferencial sobre os circuitos artísticos alternativos:
Situação mestiçagem specific: AV/ PR /XX &
XXI.
Newtown Goto
Busca-se
aqui identificar e contextualizar a produção de artes
visuais feita em circuitos alternativos, tendo como área
de interesse específico o território paranaense, e
o recorte temporal, os séculos XX e XXI.
Distante
de querer enclausurar a cultura num regionalismo, em limites de
fronteiras ou formação étnica, propõe-se,
antes, um olhar sobre a arte local visando pontuar valores culturais
e artísticos singulares, construindo, simultaneamente, um
discurso capaz de dialogar com a arte universal de seu tempo, com
o espírito da época.
Ao
contrário de imprimir uma tendência nativista ao olhar
instaurado, o contexto local torna-se foco, de fato, pois ainda
hoje ele é uma invisibilidade dentro do patrimônio
visual da arte brasileira. Assim, é ainda necessário
revelá-lo às vistas do outro: nós, brasileiros
(!).
As
causas desse sulista ponto cego histórico, entre outros que
certamente existem Brasil afora, remetem, a princípio, a
questões de indústria cultural e a relações
entre metrópole e periferia, a exemplo da influência
e dominância da cultura do eixo Rio-SP. Além disso,
a situação específica local também não
é exatamente uma reedição do que acabou sendo
convencionado como tripé da brasilidade étnica, a
mistura do negro, índio e português; nem tampouco,
uma sincronia e eqüidade aos grandes ciclos econômicos
que predominaram no território nacional – pau-brasil,
açúcar, mineração, café... Isso
provavelmente contribui para que certas especificidades culturais
regionais, a exemplo da situação paranaense, continuem
despercebidas mesmo às leituras consideradas panorâmicas
sobre a produção cultural e artística brasileira.
Nessa
terra, já no princípio da Colônia, os índios
foram caçados e dizimados por bandeirantes paulistas com
suas incursões às missões jesuíticas
espanholas, à oeste, e expulsos de suas terras – num
processo gerador de uma grande migração e varredura
étnica, conflito esse finalizado com a expansão da
colonização tradicional portuguesa, a qual subia a
Serra do Mar, movendo-se da região da Baía de Paranaguá
aos Campos de Curitiba, e expandindo-se pelos Campos Gerais. Diga-se,
uma colonização portuguesa que durante muito tempo
viveu isoladamente e em situação até precária,
principalmente no planalto, numa época em que o Paraná
era ainda uma relegada 5ª Comarca de São Paulo, situação
que perdurou até 1853, com a emancipação política
do Estado. Comparando com outras regiões do Brasil, a cultura
negra aqui teve uma presença bem menor. E a partir de meados
e fim do século XIX, vieram milhares de imigrantes, principalmente
europeus, para ocupar, cultivar e colonizar a terra. Dentre os estados
do sul, todos envoltos nesse processo de imigração,
o Paraná foi o que recebeu maior diversidade de etnias. Por
fim, antes da metade do século XX, levas de cafeicultores
mineiros e principalmente paulistas chegaram às terras roxas
do norte do Paraná; enquanto no Oeste, posteriormente, foram
gaúchos os colonos. Desta forma, o povo paranaense tem uma
composição populacional recente, com diferentes lastros
de origem e uma identidade ainda em fusão, pode-se dizer
até, sem identidade, pois tudo está sendo, ainda,
mistura. Somos, pois, neomestiços.
Quanto
à economia, um ciclo do ouro que logo percebeu-se como escasso;
o intenso tropeirismo, responsável pelo transporte de gado
do Rio Grande do Sul à São Paulo e Minas e pela fixação
da colonização cada vez mais para oeste; o beneficiamento
e comércio da erva mate deflagrando o primeiro grande ciclo
industrial; a exploração da madeira num processo devastador;
o café; a soja; e uma recente industrialização,
calcada, em muito, num capital internacional na região de
Curitiba e na agroindústria, no interior.
Uma
cultura num processo de hibridização como esse pode
parecer uma incógnita aos outros. E também sua arte.
Ainda assim, a região mais tradicional e de colonização
mais antiga, principalmente Curitiba - por ser desde muito tempo
o maior centro urbano e industrial, e também a capital -
tem uma rica e singular história cultural, inclusive de circuitos
alternativos de arte.
Enquanto
a região de Londrina, de história mais recente, somente
entorno dos anos 70, e adensando nos 80, é que se apresenta
com mais força para a cena cultural e artística.
Não
deixa de ser estranho, ainda que processualmente compreensível,
o fato de, mesmo dentro do Paraná, as culturas de Curitiba
& Londrina (por exemplo) se verem também quase como exóticas
uma a outra...
A prática artística de circuitos autogeridos que se
quer relevar aqui trata justamente da questão de como os
artistas e outros agentes culturais construíram seu próprio
lugar e tempo para melhor fazerem circular suas produções.
E/ou ainda, de quais estratégias fizeram uso esses mesmos
empreendedores para não se conformarem estritamente aos tradicionais
circuitos institucionalizados de arte ou parâmetros de linguagem
artística já estabelecidos. Isso num ambiente paranaense
onde até a própria institucionalização
era algo em construção, um porvir. E, em certos aspectos,
continua a ser um porvir.
O vínculo
com a experiência local - a autoreferencialidade - principalmente
quando confrontado com os conteúdos externos que se instalam
e reverberam, é, além de um gesto de resistência
e autonomia cultural, uma perspectiva afirmativa de troca e diálogo.
Sem isso, corre-se o risco da aculturação . E aqui
no PR, essa nova varredura também é um perigo à
espreita, pois numa cultura que ainda decanta-se enquanto mistura
específica, os conteúdos alheios que chegam através
das novas dinâmicas culturais, econômicas e midiáticas
por vezes exercem uma pressão excessiva. Não bastasse
isso, estamos falando ainda em circuitos alternativos, de um certo
tipo de experimentalismo e estratégia, buscando analogias,
similaridades e particularidades com o já dito zeitgeist.
A autogestão
nos circuitos artísticos não é abordada como
um tema de fetiche. É, sim, encarada como reflexo de necessidades
locais para a manifestação da diferença. Reflete-se
sobre esse contexto como o memorial de uma diversidade .
E aí,
quem sabe, uma nossa singularidade possa também ser incorporada
e digerida pelos outros, enriquecendo o todo.
Ainda
que essa complexidade cultural toda seja uma realidade, e que a
intenção de se fazer um olhar regional mereça
muitas relativizações, pois afinal, “que Paraná
é esse?”; alguns acontecimentos surgem como marcantes
na manifestação local dos circuitos artísticos
alternativos, e merecem ser melhor compartilhados e contextualizados:
o Cineton de Bruno Lechowski; a revista o Joaquim editada por Dalton
Trevisan; a Garajinha; os Encontros de Arte Moderna; o Super Loja
Show; Festival Universitário Londrinense, Boca do Bode e
Colher de Chá; os jornais Anexo, Pólo Cultural e Nicolau;
as revistas Raposa e Gráfica, K’an, Medusa e Coyote;
os grupos Sensibilizar, Moto Contínuo e Museu do Botão;
o ACT, a epa!, o Dia do Nada, o Espaço Cultural Betobatata,
Ari Almeida, Organismo, interluxartelivre e outros...
Falta pra nós, talvez, assumir a escassez de um tradição,
a nossa mestiçagem specific, dando-nos mais liberdade para
encarar a situação a partir de duas assertivas correntes
por essas bandas sulistas (ao menos, no circuito mais alternativo):
“Não estou à margem de nada, estou no centro
de uma outra onda” . E: “Quem não tem tradição,
inventa!”
1Comentário
inspirado no texto Da produção de subjetividade, de
Felix Guattari, onde o autor ressalta a importância da transversalização
da autoreferencialidade, ou seja, o diálogo (transversalização)
da experiência cultural própria (autoreferencial) com
a cultura universal. In: PARENTE, André. Imagem Máquina.
A era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.
2Alain Badiou coloca a questão da política heterogênea
como o a estratégia mais importante para uma comunidade ou
sociedade encarar o mundo globalizado, diminuindo os riscos de ser
simplesmente engolida por padrões homogeneizantes, pois a
lógica heterogênea afirma o próprio tempo e
espaço de uma cultura, sendo resultado de necessidades sociais
singulares. In: BADIOU, Alain. A partir de anotações
feitas da fala do filósofo na conferência realizada
no Colóquio Interdisciplinar Resistências, ocorrido
no Cine Odeon, Rio de Janeiro, 2002.
3Essa é do poeta gaúcho Vitor Ramil.
4E essa, do multiartista paranaense Hélio Leites.
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|

Cineton, de Bruno Lechowski. Varsóvia, 1925.
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|

Encontros
de Arte Moderna: Sábado da Criação. Curitiba,
1971.
Arquivo: Ana González & Key Imaguirre
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|

Grupo
Moto Contínuo: intervenção urbana com cartazes,
Curitiba, 1983.
Arquivo: Moto Contínuo
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Grupo
Sensibilizar: happening "31 de março de 1964",
Boca Maldita, Curitiba, 1984.
Arquivo: Sensibilizar
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Carnaval
da Ex-cola de Samba Unidos do Botão, Rua das Flores, Curitiba,
1998.
Arquivo: Museu do Botão
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TV
DIGITAL E TV COMUNITÁRIA
tecnologia de digitalização do sinal de televisão
e acesso público
Almir Almas*
Para falar de televisão comunitária hoje é
preciso destacar dois conceitos que, de certa forma, reaparecem,
de outro modo, na discussão sobre a implantação
da televisão digital: acesso público e participação
comunitária. Acesso público pode ser facilmente identificado
ao conceito de inclusão digital, enquanto que participação
comunitária às possibilidades de interatividade, constantes
do Decreto 4.901, de 26 de novembro de 2003, e do Decreto 5.820,
de 29 de junho de 2006, que institui e implanta, respectivamente,
o Sistema Brasileiro de Televisão Digital - Terrestre. Ao
pé da letra, não vejo diferença substancial
entre acesso público, participação comunitária,
inclusão digital e interatividade.
O conceito de acesso público, criado nos Estados Unidos,
serviu de parâmetros para um sem número de experiências
de acesso aos meios de produção da mídia televisiva
em diversos outros países. Não é, simplesmente,
explodir o conceito de broadcasting (um emissor e vários
receptores), mas, permitir que outros atores participem do jogo
de poder que a comunicação institui. Porém,
a meu ver, por outro lado, não significa, efetivamente, pulverização
do emissor, mas, antes, "acesso" aos meios de produção
para se tomar o (ou estar no) lugar do ponto de emissão.
Quanto à participação comunitária, vale
a pena retomar aqui as experiências riquíssimas e bem
sucedidas das TVs Comunitárias e das TVs de Rua, bem como
de grupos de vídeo popular, que tomaram corpo nos anos 80
e 90, com características únicas, que só se
vê no Brasil, com suas atuações no espaço
urbano e público. Com um misto de política, sociologia,
estética e conhecimento tecnológico de ponta, essas
experimentações procuravam, efetivamente, realizar
uma espécie de “inclusão”, seja através
de programação televisiva feita com e pelas comunidades
locais, quanto por oficinas e treinamentos que possibilitavam o
domínio técnico dos meios de produção
de comunicação social.
Nessa seara, destacam-se as experiências da TV VIVA, de Olinda,
da TV Maxambomba, da Baixada Fluminense e da TV Anhembi, de São
Paulo (experiência encerrada em janeiro de 1993, após
a saída de Luíza Erundina, da administração
do PT, da prefeitura da cidade); e, mais recentemente, a experiência
da TV Pinel, do Rio de Janeiro. Em todas essas TVs Comunitárias,
a participação real da população local,
a intervenção no espaço público e urbano,
o domínio de uma tecnologia de ponta e seu compartilhamento
entre a comunidade se fizeram presentes, caracterizando um ambiente
da mídia televisiva bem próprio do Brasil. Uma das
razões dessa particularidade se deve ao fato de que até
1995, quando da promulgação da Lei 8977/95 (a Lei
de TV a Cabo), que institui os Canais de Livre Acesso, o Brasil
não tinha nada parecido com os Canais de Acesso Público
(Public Access Channels) da Lei promulgada nos Estados Unidos pelo
FCC (Conselho Federal de Comunicação), em 1972.
Entrando na discussão da televisão digital, é
preciso lembrar que a assinatura do Decreto 5.820, em 29 de junho
de 2006, não é, em definitivo, o ponto final dessa
questão. Para mim, a importância desse decreto está
em abrir uma nova etapa na implantação da televisão
digital no Brasil. O referido decreto é a tão esperada
peça governamental que trata da implantação
do SBTVD-T (Sistema Brasileiro de Televisão Digital –
Terrestre), e que estabelece as diretrizes a serem tomadas para
a efetivação da transição da televisão
analógica para a digital no Brasil.
Na verdade, nem tudo está resolvido com a assinatura e publicação
do decreto. O que se definiu foi a base em que se assenta a digitalização
da transmissão de televisão terrestre no Brasil, preconizando
a incorporação das inovações tecnológicas
brasileiras ao padrão de sinais do ISDB-T japonês.
Preconiza também a fixação de “diretrizes
para elaboração das especificações técnicas
a serem adotadas no SBTVD-T, inclusive para reconhecimento dos organismos
internacionais competentes” e “a criação
de um Fórum do SBTVD-T” para assessorar o Comitê
de Desenvolvimento “acerca de políticas e assuntos
técnicos referentes à aprovação de inovações
tecnológicas, especificações, desenvolvimento
e implantação do SBTVD-T.”.
Vejo nessa nova etapa dois caminhos claramente definidos: a) a continuidade
das pesquisas e decisões das questões técnicas,
em direção às especificações
necessárias para a caracterização de um sistema
brasileiro (ou internacional, a partir das inovações
brasileiras), bem como o intercâmbio entre Brasil e Japão
e outros países; b) uma maior atenção às
discussões que até então não tiveram
grande destaques, como modelo de negócios, produção
de conteúdo, legislação, estética, programação
e cultura televisiva.
Nesse ponto, posso fazer a ligação entre a televisão
digital e a televisão comunitária. Segundo o Decreto
5.820/06, a implantação do SBTVD-T deverá permitir
que a União explore “o serviço de radiodifusão
de sons e imagens em tecnologia digital”, oferecendo quatro
espaços, em operação compartilhada, para abrigar
os seguintes canais: a) Canal do Poder Executivo; b) Canal de Educação;
C) Canal de Cultura; d) Canal de Cidadania.
Embora, para mim, esse dispositivo esteja aquém do se poderia
esperar para a verdadeira democratização da televisão
digital, podem estar nesses canais as possibilidades de discussão
do que preconizam os dois decretos citados acima (4.901/03 e 5.820/06);
e pode estar aí também o momento de colocar em evidência
os conceitos de acesso público, participação
comunitária, inclusão digital e interatividade. Por
outro lado, só a existência desses artigos no âmbito
desses decretos não garante nada. A existência, por
exemplo, do mecanismo dos Canais de Livre Acesso na Lei do Cabo,
por si só, não garantiu uma diversidade de vozes e
nem rompeu com o conceito emissor/receptor. Uma grande parte da
culpa se deve, creio eu, à questão do financiamento
da produção, que, propositadamente, foi deixada de
fora daquela lei.
Diante disso, hoje, creio que a boa luta na televisão digital
não deve ser simplesmente a luta por mais canais, mas por
mecanismos de financiamentos dessas novas e diversas vozes que podem
surgem com a digitalização do sinal de televisão.
Finalizando, entendo que os conceitos que norteiam a televisão
comunitária são os mesmos que norteiam a luta pela
democratização na televisão digital. Os conceitos
que estão por trás da batalha para que a população
tenha acesso aos meios eletrônicos digitais de informação
são os mesmos que anteriormente moviam o acesso público
aos canais de televisão. Entendo também que além
da simples disponibilização desses espaços
livres e democráticos, a verdadeira luta a ser travada deve
ser pela sua viabilização econômica.
* Almir Almas é Videoartista; membro dos coletivos C.O.B.A.I.A
e Formigueiro; Pesquisador e Professor do CTR/ECA/USP; Doutor em
Comunicação e Semiótica, pela PUC/SP.
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O Canal Contemporâneo e a construção do espaço
cibernético como meio social
Patricia Canetti
Trabalhar
o Canal Contemporâneo é pesquisar, experimentar e construir
o espaço cibernético a partir de suas especificidades
e principalmente de suas novas características como meio
social.
Como
entendemos este novo espaço que não se mede por largura,
comprimento e altura? Como o habitamos? Como nos movimentamos dentro
dele e para fora dele? Como o desenhamos e projetamos? Como se constrói
este espaço?
1
O
ponto de partida para a construção do Canal Contemporâneo
se deu na falta de comunicação da coletividade de
arte contemporânea brasileira. Mais do que uma carência
informacional, a deficiência de comunicação
causava e refletia uma imobilização dessa coletividade
– a falta de circulação de idéias é
fatalmente responsável pelo enfraquecimento das articulações
políticas necessárias ao desenvolvimento de um coletivo
humano –, e, no nosso caso, o resultado não podia ser
diferente.
O
simples vai-e-vem de informação na rede sobre eventos
de arte por si só, desde o início, já provocaria
alguns rearranjos a partir da ampliação da visibilidade
alcançada. Eventos alternativos, que no Canal experimentam
a mesma importância de eventos “instituídos”,
passam a acontecer em qualquer lugar, em ações de
curta duração, sem a necessidade de uma estrutura
reconhecida para ecoar junto à imprensa e ao público.
Editais de arte têm suas inscrições triplicadas,
quadruplicadas ou mesmo multiplicadas em dez vezes: diversificamos
e ampliamos o acesso aos editais, mas também geramos uma
saudável concorrência entre eles. Enfim, profissionais
e organismos de diferentes vertentes artísticas e de várias
partes do país ganharam um espaço de troca, viabilizando
encontros heterogêneos e intercâmbios regionais.
Com
a comunicação estabelecida no modesto início
em 2001, com apenas 50 eventos divulgados durante o primeiro ano
– marca que o Canal atualmente pode cobrir em apenas três
semanas – vislumbramos no ano seguinte uma segunda camada
de conteúdo nitidamente mais política.
Em
episódios como o da exposição Panorama da Arte
Brasileira no MAM-Rio X Jornal do Brasil , em que os curadores da
exposição usaram o espaço do Canal para se
defender de uma crítica superficial e leviana publicada neste
jornal, e da exposição Morro/Labirinto no Paço
Imperial X Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro , quando
novamente o Jornal do Brasil usou um tom debochado para se referir
à arte contemporânea, ficava claro que necessitávamos
de outros espaços para desenvolver e aprofundar discussões
críticas e políticas. Já nos casos do fechamento
da Cinemateca do MAM-Rio e do despejo da Escola de Artes Visuais
do seu lugar de origem, o Parque Lage, a demanda evolui para ações
e mobilizações que viriam a amadurecer ao longo de
nossa ainda curta trajetória.
Conforme
avançamos na troca de informações e opiniões,
criando um reflexo de nós mesmos, passamos a nos conhecer
mais e a nos estranhar menos. Ao mesmo tempo em que nos reconhecíamos
no jogo de padrões, formado pelas inúmeras relações
conceituais, profissionais e institucionais que cada indivíduo
e/ou organismo representa, experimentávamos novas relações
que permitiam novas ações, redesenhavam padrões
de comportamento e formavam novos espaços. Essas novas ações
ao mesmo tempo em que exercitam alternativas aos poderes instituídos
(sistema de arte, governo e imprensa), também retornam outras
novas relações na coletividade a partir de suas vivências
e de seus resultados. Sendo que alguns destes resultados, como foi
o caso da mobilização que impediu a implantação
de uma filial do museu Guggenheim no Rio de Janeiro, a ser subsidiada
por recursos públicos, viriam a surpreender e até
mesmo constranger a coletividade artística brasileira.
O
abaixo-assinado do Guggenheim, como ficou conhecida essa mobilização,
em resposta a uma nova política cultural do Prefeito do Rio
de Janeiro, que, na virada de 2002 para 2003, interrompia um dos
projetos mais democráticos já propostos em nossa cidade
– um banco de projetos culturais enviados por artistas e produtores
de todas as áreas que iria alimentar as ações
do RioArte (fundação extinta agora em 2006 pelo alcaide/algoz
da cultura do Rio de Janeiro). Um grupo de artistas e teóricos
começou a se reunir para discutir as estratégias possíveis
contra as políticas culturais ditatoriais, populistas e eleitoreiras,
entre elas a construção do museu Guggenheim, e publicou
no Canal Contemporâneo uma convocação contra
tudo isso . As reuniões continuaram no AGORA e depois no
Parque Lage ; uma lista de discussão, artesvisuais_politicas,
conectava o grupo do Rio, enquanto o Canal Contemporâneo ampliava
o alcance desta movimentação local .
Publicado
em 9 de fevereiro de 2002: http://www.canalcontemporaneo.art.br/e-nformes.php?codigo=79
O que incomoda mais?, publicado em 17 de março de 2002: http://www.canalcontemporaneo.art.br/e-nformes.php?codigo=107
Em 2002, a partir de 2 de junho, vários informativos foram
enviados tornando públicas as posições do MAM
e do MinC, como também o abaixo-assinado e a audiência
na ALERJ: http://www.canalcontemporaneo.art.br/e-nformes.php?codigo=188
Publicado em 5 de março de 2002: http://www.canalcontemporaneo.art.br/e-nformes.php?codigo=97
Grupos
de estudos destrincharam o Estudo de Viabilidade do Guggenheim-Rio,
a Análise desse último e o contrato que seria assinado
entre a prefeitura do Rio e a Fundação Guggenheim,
listaram os possíveis danos ao mercado de trabalho e ao contexto
culturais brasileiros e escreveram um documento , que abordava o
uso de recursos públicos federais, através da Lei
de Incentivo à Cultura. Pela primeira vez, profissionais
da área se uniam para analisar e se posicionar perante uma
postura leviana de governo, que afetaria diretamente o seu mercado
de trabalho. É claro, porém, que não havia
um consenso. Alguns profissionais acreditavam que de qualquer maneira
a vinda do Guggenheim para o Rio de Janeiro impulsionaria a arte
contemporânea brasileira, tanto nacional, como internacionalmente.
A
sociedade civil representada pelo abaixo-assinado veiculado pelo
Canal e nas ações do grupo artesvisuais_políticas
encontrou eco junto ao poder legislativo . Juntos, produziram um
extenso dossiê, que passou a circular em várias esferas
da sociedade, chegando à imprensa que até aquele momento
se mantinha omissa. Ainda assim, o prefeito da cidade do Rio de
Janeiro assinou o contrato para a construção do Guggenheim.
Nesse ponto, o poder legislativo acionou o judiciário que,
através de uma liminar, suspendeu os primeiros pagamentos
do referido contrato. Pela primeira vez, pelo menos na história
recente do país, o meio de arte ativava o equilíbrio
democrático: conectou-se aos dois poderes, legislativo e
judiciário, para barrar uma atitude leviana e ditatorial
do poder executivo.
O
abaixo-assinado tem início a partir de uma convocação
veiculada pelo Canal Contemporâneo em 1º de fevereiro
de 2003: http://www.canalcontemporaneo.art.br/e-nformes.php?codigo=426
Espaço AGORA/Capacete - Espaço independente criado
e gerido pelos artistas Eduardo Coimbra, Helmut Batista, Raul Mourão
e Ricardo Basbaum, entre 2000 e 2003, situado no bairro da Lapa
no Rio de Janeiro.
Escola de Artes Visuais do Parque Lage, única escola de ensino
livre de artes visuais no Rio de Janeiro: http://www.eavparquelage.org.br
A mobilização contra o Guggenheim no Canal Contemporâneo
e o histórico das publicações no Canal e seus
respectivos linques: http://www.canalcontemporaneo.art.br/documenta12magazines/archives/000968.php
Relatório do Estudo de Viabilidade, versão para discussão,
Encarte Rio Estudos, publicado no Diário Oficial de 22/11/02.
Comentários sobre o Estudo de Viabilidade do museu Guggenheim-Hermitage-Kunsthistoriches-Rio,
por Maria de Lourdes Parreiras Horta, museóloga, com colaboração
de Maria Inez Turazzi, historiadora (http://www.canalcontemporaneo.art.br/anexos/8.rtf).
O Guggenheim, a Lei Rouanet e outras renúncias fiscais federais
(http://www.canalcontemporaneo.art.br/e-nformes.php?codigo=438#4).
Publicação com as últimas adesões em
25 de julho de 2003: http://www.canalcontemporaneo.art.br/e-nformes.php?codigo=162#10
O Legislativo aqui se fez representar pelos vereadores do Rio de
Janeiro Mário Del Rey (PSB) e Eliomar Coelho (PT), sendo
que este último foi responsável pela liminar.
2
As
articulações promovidas pelo Canal Contemporâneo
até 2003 se davam através do recebimento de emeios
e envio dos e-nformes (informativo eletrônico que na época
era enviado quase que diariamente), por causa da precariedade de
nosso sítio que ainda não disponibilizava qualquer
tipo de acesso interativo. Em razão de nossa permanente deficiência
tecnológica em relação às demandas da
comunidade que se formava, a prática e conceituação
do Canal sempre partiram das relações nele existentes
e constantemente recriadas. Surge daí a proposição
“As relações são o espaço”
que, juntamente com o hipertexto, formará a dinâmica
em camadas responsável pelo desenho de nosso espaço
cibernético.
Por
falar em desenho, é importante dizer que a arquitetura do
sítio incorporou totalmente a cultura brasileira do “puxadinho”
e foi sendo construído aos poucos, respondendo ao mesmo tempo
às demandas e aos investimentos da comunidade. Pequenas somas
arrecadadas nas assinaturas semestrais do Canal eram investidas
na construção de algumas seções e na
implementação de plataformas livres já existentes,
o que resultou no que chamamos de “Frankenstein Cibernético”.
Este “ser” aos pedaços em que o Canal Contemporâneo
se transformou tornou-se o seu maior desafio tecnológico.
Em
2004, integramos interfaces de blog e fórum ao sítio
do Canal, que finalmente ganhou alguma interação e
passou a responder, mesmo que ainda muito basicamente, à
necessidade de maior comunicação com a comunidade
a partir do próprio sítio. Blogs e fóruns desde
o início ancoraram conteúdos e serviços, mas
principalmente serviram de plataformas para mobilizações,
propostas de trabalhos e eventos táticos. Tecnopolíticas,
Como atiçar a brasa e Quebra de padrão renderam boas
discussões e manifestações que alcançaram
alguns resultados importantes.
O
tecnopoliticas.art.br começou a partir de um abaixo-assinado
das Artes Tecnológicas, pedindo mudanças ao governo
em relação à Lei de Incentivo a Cultura cujo
texto até hoje ignora a internet e as artes digitais. Primeiramente,
com o objetivo de dar suporte ao abaixo-assinado e mantê-lo
no ar (lembrando que o abaixo-assinado do Guggenheim, como já
foi dito anteriormente, foi todo trabalhado apenas com as chamadas
nos e-nformes), esse blog seguiu dando suporte a esporádicas
mobilizações , como também ancorando textos
e matérias referentes à área de Arte, Ciência
e Tecnologia.
O
contato travado com o governo federal a partir do abaixo-assinado
não chegou a ser propriamente um diálogo, por estar
a recém inaugurada política de cultura digital mais
relacionada à inclusão digital, software livre e à
indústria e menos às artes, mas ainda assim rendeu
alguns avanços. Em 2005, na criação do Conselho
Nacional de Política Cultural foi dada uma cadeira para a
representação das artes digitais e, em 2006, a nova
regulamentação da Lei Rouanet passou a contemplar
a área de “artes visuais, arte digital e eletrônica”
na formação da CNIC (Comissão Nacional de Incentivo
à Cultura), comissão esta responsável pela
aprovação dos projetos neste mecanismo.
Outro
blog, o Como atiçar a brasa – proposta de um trabalho
coletivo de mídia tática, que consiste em enviar emeios
para os jornalistas, comentando as matérias publicadas em
jornais e revistas, ou a falta delas, com cópia para o blog
–, vai desenvolver esta vertente do Canal com objetivo de
ampliar ainda mais o debate sobre políticas culturais e os
espaços de discussão nas mídias convencionais
e na sociedade.
Nesta
troca com a imprensa, através do Como atiçar a brasa,
alguns embates obtiveram vigorosos resultados. Em 2004, a discussão
sobre a escultora Mazeredo resulta na criação da Comissão
de Paisagem Urbana do Rio pela Secretaria Municipal de Cultura e
a subseqüente retirada das peças de Mazeredo da Av.
Atlântica , exigida pela recém criada comissão
e tendo sido este o seu único ato conhecido até hoje.
Ainda no mesmo ano, a discussão sobre o fechamento das galerias
do Espaço Cultural Sérgio Porto resulta na manutenção
de seu funcionamento , mesmo que com o seu orçamento totalmente
prejudicado. E, por último, em 2006, o abaixo-assinado contra
a censura à obra de Márcia X no CCBB , iniciado com
uma carta da galeria A Gentil Carioca exigindo o retorno da obra
para a exposição Erótica, deflagra, além
de matérias em jornais de várias cidades , o posicionamento
do ministro da cultura Gilberto Gil ; de artistas e colecionadores
expositores , da produção e da curadoria da mostra.
Como resultado, ocorre o cancelamento da última etapa da
itinerância para Brasília e surge o projeto de uma
mostra sobre censura para acontecer no Museu Nacional de Belas Artes
no Rio.
Mobilização
pela Arte Tecnológica veiculada no Canal Contemporâneo
a partir de 20 de março de 2004: http://www.canalcontemporaneo.art.br/tecnopoliticas/archives/000065.html
Abaixo-assinado para referendar a lista tríplice de candidatos
à cadeira de Artes Digitais no CNPC: http://www.canalcontemporaneo.art.br/tecnopoliticas/archives/000566.html
Decreto Nº 5.520 de 24.08.2005, que institui o Sistema Federal
de Cultura - SFC e dispõe sobre a composição
e o funcionamento do Conselho Nacional de Política Cultural
- CNPC do Ministério da Cultura: http://www.cultura.gov.br/legislacao/decretos/index.php?p=11540&more=1&c=1&pb=1
Decreto nº 5.761, de 27.04.2006, que regulamenta a Lei n o
8.313, de 23 de dezembro de 1991, e estabelece sistemática
de execução do Programa Nacional de Apoio à
Cultura – PRONAC: http://www.cultura.gov.br/legislacao/decretos/index.php?p=15407&more=1&c=1&pb=1
O
Sérgio Porto protagonizou uma outra discussão no Canal,
desta vez com a abertura de um fórum a pedido de artistas
envolvidos numa seleção que havia sido abortada pela
Secretaria Municipal da Cultura. Pela primeira vez na história
desta importante instituição, a seleção
de portfolios de artistas para exposições no Sérgio
Porto havia se tornado pública, com a divulgação
feita no Canal Contemporâneo . Mas, ao invés de recebermos
o resultado dos selecionados na data prevista, surge meses depois
um outro resultado... Esta não era uma atitude nova deste
governo, que no ano anterior já havia cancelado a edição
do Bolsa RioArte, quando a primeira fase da seleção
já havia sido concluída. Artistas bradaram no fórum
do Canal pela manutenção da legalidade do processo.
Rendeu matéria de capa no caderno de cultura do jornal O
Globo ; a publicação no Canal da ata da seleção
original ; carta do novo curador e pedido de demissão da
diretora das galerias do Sérgio Porto, ambos enviados para
o fórum do Canal; e mais duas matérias no Globo, enfim,
tornou-se claro e transparente mais um desmando na área da
cultura no Rio de Janeiro. O que vimos começar na virada
de 2002/2003 prosseguia e jogava desta vez as galerias Sérgio
Porto num limbo cultural.
Arte
revogada: Comissão criada pela Secretaria das Culturas para
preservação da paisagem urbana da cidade pede a remoção
das 14 esculturas de Marli Mazeredo do espaço público
carioca, matéria do Jornal do Brasil de 4 de agosto de 2004:
http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/000223.html
Macieira diz que vai manter Galeria 2 do Sérgio Porto, matéria
do jornal O Globo de 25 de junho de 2004: http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/000191.html
Abaixo-assinado CENSURA NÃO! - Pelo retorno da obra de Márcia
X à exposição Erótica no CCBB: http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/000708.html
Exigimos que a obra censurada pelo CCBB retorne à exposição:
http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/000704.html
Arte Crucificada - Editorial da Folha de S. Paulo em 29 de abril
de 2006: http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/000727.html
Nota à Imprensa: Ministro da Cultura, Gilberto Gil, manifesta-se
contrário à proibição de obra da artista
plástica Márcia X: http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/000719.html
Cartas de Rosângela Rennó e Annelise Davée Llerena
para o CCBB em 24 de abril de 2006: http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/000713.html
Carta enviada ao Banco do Brasil pelos artistas Maurício
Dias e Walter Riedweg: http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/000705.html
A obscura seleção do Sergio Porto: http://www.canalcontemporaneo.art.br/forum/viewtopic.php?t=28
Seleção Pública Galerias Sérgio Porto
2005 – Inscrições: http://www.canalcontemporaneo.art.br/saloesepremios/archives/000322.html
Intriga no Sérgio Porto, matéria publicada no jornal
O Globo, na capa do Segundo Caderno de quinta-feira, 23 de junho
de 2005: http://www.canalcontemporaneo.art.br/forum/viewtopic.php?t=40
3
O
Quebra de padrão, lançado na mostra Hiper em Porto
Alegre e reeditado na Ocupação do Paço das
Artes em São Paulo, vai usar uma nova estratégia de
ação ao entrar como trabalho em exposições
de arte.
O
Quebra de padrão trata do engessamento que vivenciamos em
relação ao uso da camada informacional do Canal, que
continua preso ao padrão ditado pelos meios impressos, que
apenas se interessam pela novidade das aberturas dos eventos e não
pelo evento em si – muito menos ainda pelo processo da arte
que se torna visível nas exposições. O trabalho
se apresentou e se desenvolveu de maneira bem diversa nestas duas
edições. Na Hiper, apesar de uma ação
vivencial, apresentou-se na rede com um formato crítico-jornalístico
, por estarem apenas duas pessoas encarregadas da publicação
dos posts: eu e principalmente Juliana Monachesi, jornalista, crítica
e curadora de arte paulista cuja tese de mestrado nasceria no Quebra,
mas isso já é outra história... E, no espaço
expositivo, o Quebra de padrão acontecia num par de computadores.
Na Ocupação, buscou-se um maior transbordamento da
exposição para a rede e vice-versa. Os artistas integrantes
foram convidados a postar seus relatos de “ocupantes”
no blog virtual e também no “blog físico”:
um enorme quadro-negro pintado no espaço expositivo . E,
enquanto eu cumpria o meu turno na Ocupação, também
havia um laptop para ser acessado. Estas duas configurações
renderam resultados bem distintos, mas nenhuma delas foi capaz de
quebrar o padrão da camada informacional do Canal. No entanto,
o transbordamento buscado na Ocupação provocou um
efeito dominó dos mais interessantes e desejáveis,
com a publicação de uma discussão sobre a exposição
que ocorria na lista do Coro .
Ata
final das reuniões da Comissão de Seleção
de projetos para o Espaço Cultural Sergio Porto: http://www.canalcontemporaneo.art.br/forum/viewtopic.php?t=36
HiPer> relações eletro//digitais, curadoria de
Daniela Bousso, no Santander Cultural, Porto Alegre, 31 de maio
a 5 de setembro de 2004.
Ocupação do Paço das Artes, São Paulo,
6 de junho a 16 de julho de 2005.
hiPer>experimentação: http://www.canalcontemporaneo.art.br/quebra/archives/000108.html
Quebra de Padrão: Novos Parâmetros para a Crítica
de Arte no Contexto da Cultura Digital: http://www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=3185
o quebra na ocupação: http://www.canalcontemporaneo.art.br/quebra/archives/000430.html
Com
o lançamento do evento, iniciou-se no Coro uma discussão
sobre o uso do termo “ocupação” por parte
de uma instituição cultural pública. Na época,
o coletivo Coro estava envolvido na Ocupação Prestes
Maia no Centro de São Paulo e na briga pela permanência
de 2000 pessoas do MSTC - Movimento Sem Teto do Centro, que reivindicavam
o prédio como moradia. Alguns integrantes do Coro comparavam
a apropriação da “ocupação”
pelo Paço das Artes ao Capitalismo e seus mecanismos de absorção
de estratégias de resistência para digeri-las e subvertê-las.
Outros, também participantes da mostra no Paço, achavam
que a situação não era tão preto no
branco como alguns estavam argumentando.
Logo
de início, avisei à lista que publicaria os argumentos
da importante discussão no blog do Quebra de padrão.
Depois de publicado na rede, as mensagens foram impressas e postadas
também no “blog físico” da exposição,
o que detonou o debate sobre o uso do termo na vivência da
mostra. (Para compor a Ocupação, a instituição
havia colocado uma condição aos artistas expositores
para que estivessem presentes durante um turno diário pré-estipulado
durante toda a exposição. Da mesma maneira como não
houve curadoria em relação aos trabalhos expostos,
tampouco existiu uma determinação sobre o que seria
feito durante as horas de ocupação, o que nos levou
a uma surpreendente vivência num espaço/tempo suspenso
dentro da cidade de São Paulo.)
A
discussão invadiu a Ocupação do Paço
das Artes, contaminou os encontros da mostra, provocou uma resposta
da diretora da instituição , que a postou no Quebra
de padrão e a difundiu pela internet; esta mensagem instigou
matérias nos jornais de São Paulo , com direito a
respostas por parte do secretário de cultura , quando finalmente
o motivo da exposição Ocupação veio
à tona com todas as letras: a precariedade financeira desta
instituição cultural e, porque não dizer, das
instituições culturais públicas brasileiras
como um todo.
Lista
de discussão do coletivo Coro: http://br.groups.yahoo.com/group/corocoletivo/
Da lista de discussão do coletivo CORO, sobre a Ocupação
do Paço das Artes: http://www.canalcontemporaneo.art.br/quebra/archives/000422.html
Esclarecendo o sentido da Ocupação no Paço
das Artes: http://www.canalcontemporaneo.art.br/quebra/archives/000437.html
"Falta apoio à arte", acusa diretora do Paço,
matéria de Fábio Cypriano, publicada originalmente
na Folha de S. Paulo, Ilustrada, na terça-feira, dia 5 de
julho de 2005:
http://www.canalcontemporaneo.art.br/quebra/archives/000453.html
Proposta de espaço aberto, mas controlado, matéria
de Maria Hirszman, originalmente publicada no Estado de São
Paulo no dia 15 de Julho de 2005: http://www.canalcontemporaneo.art.br/quebra/archives/000471.html
Governo de SP rebate crítica do Paço das Artes, matéria
de Fábio Cypriano publicada originalmente na Folha de S.
Paulo, Ilustrada, no sábado, dia 9 de julho de 2005: http://www.canalcontemporaneo.art.br/quebra/archives/000460.html
Curiosamente,
apesar da discussão suscitada e da ampla cobertura da imprensa,
não houve na seqüência qualquer interesse da parte
dos profissionais de arte, da mídia e da sociedade em saber
mais sobre a situação das instituições
culturais de São Paulo, que à época já
estavam em processo de se tornarem Organizações Sociais.
Atualmente, todas as instituições da cidade pertencentes
ao governo do Estado de São Paulo já são OSs
e continuamos a não saber o que a mudança significa
e significará para o futuro de nossas instituições
culturais.
4
Com
a última reforma do sítio do Canal, toda esta movimentação,
que encontrou abrigo nos blogs e fóruns, foi reunida na seção
Canal em ação, que este ano teve um novo blog agregado
para servir à participação do Canal Contemporâneo
no documenta 12 magazines .
O
projeto documenta 12 magazines é um trabalho colaborativo
inédito entre cerca de 80 publicações impressas
e eletrônicas sobre arte contemporânea de todo o mundo.
A partir dos três temas da documenta de Kassel (Alemanha)
que abre em junho de 2007, estimulam-se debates, trabalhos artísticos
e formas variadas de reflexão sobre os eixos centrais da
mais importante mostra de arte do planeta.
Vejamos
a proposição do diretor artístico da documenta
12 : “Uma das questões fundamentais de uma exposição
de arte que acontece no contexto de um mundo globalizado é
o levantamento de conhecimentos locais específicos. Como
conceber imagens que se originam, mas que vão além,
das fronteiras de uma localização particular? Como
esse conhecimento local pode ser representado na documenta 12? Como
ele se manifesta? Como o processo de transferência acontece?
Este é o ponto de partida do projeto documenta 12 magazines:
não apenas um meio de transferência, mas uma forma
de organização. Ao mesmo tempo, a criação
da revista é em si mesmo um processo de comunicação
que não apenas abre um sem número de temas e prioridades,
mas que revela trabalhos.”
Participação
do Canal Contemporâneo no projeto documenta 12 magazines:
http://www.canalcontemporaneo.art.br/documenta12magazines
Os três eixos temáticos da documenta 12: http://www.canalcontemporaneo.art.br/documenta12magazines/archives/000868.php
O projeto documenta 12 magazines: http://www.canalcontemporaneo.art.br/documenta12magazines/archives/000833.php
A
possibilidade da diversidade que conhecemos na comunidade do Canal
compor um mosaico participativo neste projeto aponta novos caminhos
para as ações do Canal e novas perspectivas de rede.
A densa trama originária na arte contemporânea brasileira
agora encontra seus pares de outros pontos do planeta para colaborarem
neste projeto. O encontro dos trabalhos, que se dará primeiramente
on-line na plataforma, especificamente criada pela Documenta para
este projeto, e depois na própria exposição,
permitirá uma forma inédita de intercâmbio.
Ao mesmo tempo em que enviaremos contribuições para
a plataforma, pegaremos as contribuições de outras
partes do mundo e as traremos para o nosso convívio, quando
experimentaremos infinitas possibilidades de retrabalhar as trocas
originadas neste encontro, que é ao mesmo tempo midiático,
artístico e político.
Novas
relações vão se somar às já existentes,
para continuarmos o processo de construção do espaço
cibernético que ocupamos. Com elas, novas dissociações
também surgirão, como a que já estamos vivendo
entre a proposição deste projeto da Documenta e a
ausência da internet na edição “Como viver
juntos” da Bienal de São Paulo. Sim, as dissociações
tanto quanto as relações formam o espaço que
construímos na rede.
Continua...
Patricia
Canetti é artista e criadora do www.canalcontemporaneo.art.br
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Mercado
de arte: diagnóstico e cura
Ricardo Ramalho
A
Galeria Favo, entre outras iniciativas que existem na
cidade, visa atender e formar um público para arte.
O
esgotamento da arte contemporânea pode ser observado em
três frentes: institucional, mercadológica e conceitual.
A quase totalidade das instituições de arte tem uma
programação cujo objetivo é basicamente perpetuar
o valor
de mercado dos grandes nomes da arte, e a lavagem legalizada
de dinheiro público ou privado. As instituições
estão
encasteladas e os artistas já perderam o interesse pelos
museus e centros culturais. Se os artistas não querem ver
arte, o público muito menos.Existe uma crise moral no sistema
de arte.
Sob
a ótica do mercado de arte, o público permanece sem
referências institucionais, e o pouco contacto do povo
brasileiro com artes plásticas ainda mais reduzido, e
o colecionador não é motivado a investir na arte de
um sistema desestruturado, sem liquidez.
Conceitualmente
a arte contemporânea acabou. Existe uma
noção do senso comum do que é esta arte ; certas
parcelas da população já expressam: "não
gosto de
arte contemporânea".
Qual
seria a nova arte? Como propor algo além da arte
contemporânea, se ela ainda não foi compreendida? Será
o
caso de tentar entender essa arte?
As
galerias de São Paulo se transformaram, há anos, no
último reduto da arte, entretanto o ambiente requintado das
galerias, a dificuldade do público em ser atendido por um
especialista, e o preço dos artistas apresentados afugentam-no.
As galerias optam por artistas conhecidos e
seguros, e freqüentemente essas preferências chegam a
cansar os
clientes, que buscam trabalhos novos e mais acessíveis.
O
desafio das instituições de arte é manter uma
programação
viva, em sintonia com as novas e velhas gerações.
A
dificuldade do jovem artista em ser reconhecido
economicamente prejudica o mercado até para os artistas veteranos.
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Outros
Tempos, outras Greves
Breve comentário sobre greve e autogestão na Argentina
Marco Fernandes
Graças
à consagração da teologia neoliberal nos anos
90, a Argentina viveu a maior catástrofe social de sua história.
Depois de ser vendida, no começo da década, como exemplo
de Estado bem sucedido em nova dinâmica de acumulação
capitalista, o país teve de acordar para a triste realidade
das sociedades periféricas: com a crise em dezembro de 2000,
evaporou-se mais de 20% do PIB nacional em menos de 4 anos (um dado
que se refere normalmente a países em guerra), taxas de desemprego
de 25 % e mais da metade de seus 37 milhões de habitantes
lançados abaixo da linha de pobreza.
Os trabalhadores argentinos, assolados pela desestruturação
do mundo do trabalho, (a precariedade das relações
trabalhistas e perda contínua de garantias de emprego), viram
o tradicional poder de contestação de seus sindicatos
reduzir-se ao mínimo. Esse conjunto de fatos como a precariedade,
pobreza e falta de instrumentos políticos para conter a ofensiva
neoliberal obrigou os trabalhadores a criarem novas formas de luta
e de organização: ocupações de fábricas
e principalmente a novidade histórica representada pelos
“movimentos de desempregados”, os chamados “piqueteros”.
Enfraquecidas pela conjuntura política do mundo do trabalho,
as “greves tradicionais” deram lugar às “novas
formas de greve”.
No caso das fábricas falidas ou recém-abandonadas
por proprietários que já não pagavam há
meses os salários integrais dos trabalhadores- enquanto drenavam
recursos para aplicações financeiras, de preferência,
em paraísos fiscais- a única solução
encontrada foi tomar o espaço da fábrica e suas máquinas,
resistir às tentativas de despejo e lutar na justiça
pela desapropriação da planta como contrapartida às
dívidas trabalhistas (em geral, um processo lento e muito
conflituoso), fugindo do fantasma do desemprego e tornando possível
dar um passo além em suas reivindicações, ao
implementar um regime de autogestão na produção.
Fim das hierarquias, assembléias para decidir o quê,
como e para quem produzir, igualdade salarial entre todos os trabalhadores
(faxineiros, operários e coordenadores) , e afrouxamento
da rígida divisão do trabalho, o que tornou possível
que aprendessem novos ofícios e mudassem de função
na fábrica. Desmistificou-se a suposta necessidade de chefes
e patrões para gerir a produção, o que não
era nem um pouco claro para a maioria dos trabalhadores, que jamais
imaginou ser possível tocar a produção sem
seus “superiores”. “Se podemos controlar uma fábrica
enorme, com computadores e tudo o mais, por que não podemos
controlar todo o país?”, ouvi de um operário
ceramista da Zanon, o qual aprendeu com uma das mais bem sucedidas
experiências de autogestão na Argentina.
Os desempregados, impossibilitados por motivos óbvios de
fazer greve com intenção de parar a “produção
de mercadorias”, decidiram se organizar travando juntos a
“circulação de mercadorias”. Sem “circulação”,
não há venda. Sem venda, não há lucro.
Massivos piquetes (daí o apelido de “piqueteros”),
com adesão de dezenas de milhares de desempregados - principalmente
a partir de 2000 -, passaram a bloquear a saída de caminhões
nas fábricas, bem como o fluxo das estradas, avenidas e ruas
de Buenos Aires e outras grandes cidades do país, causando
grandes prejuízos ao setor industrial e ao comércio.
Foi a única forma de pressionar o governo a atender sua principal
reivindicação: o pagamento de “planes”
(renda mínima) - de 150 pesos, menos de 70 Euros - aos “sem
trabalho”.
O segundo passo dos movimentos foi organizar “fundos comuns”,
e para estes as milhares de famílias que recebem “planes”
contribuem mensalmente com 10 ou 15 pesos. A partir destes recursos,
e com decisões tomadas nas assembléias, começaram
a se organizar nos bairros da periferia algumas iniciativas ligadas,
sobretudo, à alimentação. Visaram baixar o
custo de vida das famílias envolvidas: o “comedor”
(cozinha comunitária), onde uma família faz uma ou
duas refeições por dia sem pagar nada; padarias e
hortas comunitárias que produzem, quase a “preço
de custo”, pães e verduras, e cujos lucros das vendas
retornam ao “comedor”. Existem hoje milhares de iniciativas
como essa nos bairros das metrópoles argentinas. Alguns movimentos
mais organizados já construíram poços artesianos,
possuem pequenas confecções, creches, postos de saúde
para primeiros-socorros e, até mesmo, cervejaria artesanal,
além de organizarem grupos de “formação
política”, para discutir os principais temas da política
nacional e ouvir histórias da luta de classes.
A combinação entre mobilização nas ruas
da cidade e o “trabalho comunitário” na periferia
vem ajudando a forjar um tipo de “identidade piquetera”****,
contraponto da humilhação causada pela pobreza sem
dignidade de um desempregado isolado, deprimido e culpado, que foi
convencido pela cantilena neoliberal, a qual insiste em repetir
que a culpa do desemprego é do desempregado: porque não
tem qualificação, por ser preguiçoso, jovem
demais, ou velho demais...(não foram poucos os depoimentos
que ouvi de pessoas saídas de graves depressões, após
se juntarem aos movimentos, porque “recuperou a dignidade”,
“voltou a se sentir útil”, “porque agora
não trabalho mais pra um patrão, mas pra minha comunidade”).
Apesar disso, a ligeira recuperação da economia da
Argentina, que na verdade só fez recuperar as perdas da crise,
pois o PIB de hoje é o mesmo de 1998, bem como algumas medidas
populares do governo Kirchner (como a moratória de mais de
80% da dívida externa, e a punição de alguns
militares da época da ditadura) enfraqueceram a oposição
dos movimentos, já então fragmentados. A dificuldade
em manter a unidade de ação e reivindicação
entre as organizações “piqueteras” contribui
para o enfraquecimento de sua força de oposição.
Desde que Kirchner assumiu, quase a metade delas aderiu ao governo
e diminuiu seus ímpetos de protesto e reivindicações.
Neste exato momento, o governo acena com a possibilidade de reduzir
pela metade os 1,4 milhões de “planes” que paga
mensalmente. Por sua vez, as fábricas ocupadas, que reúnem
em torno de 10 mil trabalhadores em mais de 300 unidades produtivas,
ainda não foram capazes de forjar um instrumento político
de esquerda que pudesse influir na política nacional. Como
se vê, o que foi criado até agora não basta
para conter o vendaval neoliberal.
Mas devemos considerar que a experiência dos “piqueteros”
como a das fábricas, apesar de politicamente ricas, não
completaram ainda uma década. São, portanto, embrionárias,
e provavelmente não esgotaram seus frutos. Elas talvez nos
dêem alguns indícios de que é não só
possível, mas necessário, começar a construir
o socialismo “antes da revolução” e da
“da tomada do palácio de inverno”. Tais experiências
demonstram que é praticável criar alternativas de
organização do trabalho, produção e
distribuição de bens, aqui e agora, sem perder de
vista o horizonte de transformação radical. Pelo contrário,
tornando-o cada vez mais concreto na sua árdua construção
diária.
A “greve tradicional” sempre foi a melhor maneira de
garantir o poder de veto da classe trabalhadora contra os nunca
satisfeitos interesses dos capitalistas, mas ela não estimula
a auto-organização. Após seu término,
os trabalhadores retornam ao “ritmo normal de trabalho”,
submetidos às imposições da divisão
do trabalho e do imperativo do lucro capitalista. Numa fábrica
ocupada e num bairro da pe | |